Matilde

Matilde

26 de março, 2020 5 Por MCestari

“Feliz, mas esperando dias melhores! A arte escrita me encanta assim como as palavras ditas em um palco! Mulher e Matilde; apaixonada e nunca conformada!”

tema sugerido

          Meu conformismo subiu no palco, bateu três vezes o pé no chão e acenou para que o técnico da mesa de luz acendesse a geral da platéia. Procurava entender os olhos que me aplaudiam, ora rindo às vestes lágrimas, ora sorrindo um farto pranto nesses encantamentos que soluçam a face. Um a um penetrei, senti e aos poucos um conforto desesperador ordenou que eu recitasse a última poesia da noite. Porém não tinha última poesia, não tinha noite, não tinha palco. Mas conformar é aceitar a vida passar sem brado, virar estatística, conformar é ser realista. E não era a realidade que me encantava.

 

          Encantada sempre fui pelas coisas inventadas, pelas palavras sopradas encrespando o capim fino que cobre o braço, pelo laço que alcança a esperança, pela menina de hélio que um dia engoli na esperança de flutuar. A idade engorda quando a responsabilidade acorda. De novo a tal realidade a se desvairar dentro da minha imaginação. De novo e sempre, mas hoje nunca.

 

          Desço para a platéia. A passada é firme e decidida. Deixo que o intento me leve, sou puro impulso, sou susto, sou surto. Pescoços se esticam pelas fileiras do fundo, corpos se retraem, pernas se cruzam, mãos gelam de suor e expectativa, foi-se a quarta parede, nada me impede, sou a minha própria rédea e sem rodeio paro frente ao meu maior anseio. Pego as suas delicadas mãos de senhora que já carregou um mundo nos ombros. Mãos delicadamente fortes, robustas, vividas.

 

          — Me diga seu nome grata senhora? — e um sorriso “rubrou” o gosto

          — Matilde!

          — E o que fazes Matilde?

          — Como poesia à espera de dias melhores. Diariamente como poesia.

 

          Estava ali uma mulher conformada. A vida se resumia a isso, comer poesia dia após dia. Degustar o cotidiano, sempre mudar de plano, deixar que a angustia se esvaia e saia. Quem come poesia dança, balança, flerta e sorri. Nesse dia eu morri. Morri de comer poesia.

Sobre o Autor

MCestari
MCestariMarcos Cestari é um quase geólogo graduado em Propaganda e Marketing concluindo a graduação EAD em Letras português/inglês. Palhaço ou Clown, artista de rua, poeta, escritor. Autor do romance Cadafalso Despertar, autopublicação que pode ser comprada aqui no site, na aba /Loja Ladra Livros. [Uma cabeça que pensa, uma cabeça que cria, uma cabeça que é pensa, uma cabeça que é minha]